Em 2014, uma equipe de empreendedores — Brock Pierce, Reeve Collins e Craig Sellars — identificou um problema crítico para a adoção de criptomoedas: a volatilidade. Enquanto Bitcoin podia oscilar 20% em um dia, traders e exchanges precisavam de um ativo digital estável para servir como porto seguro e meio de troca. Assim nasceu a Realcoin, rebatizada como Tether, uma promessa de emitir tokens digitais lastreados 1:1 em dólares americanos mantidos em reservas bancárias. Se o Bitcoin era ouro digital, o USDT seria o dólar digital — a ponte entre o sistema financeiro tradicional e o mundo cripto. A ideia era simples e poderosa, mas a execução se mostraria controversa, envolvendo batalhas legais, acusações de fraude e investigações do procurador-geral de Nova York.
O modelo operacional do Tether é enganosamente simples, mas complexo em sua execução. A empresa Tether Limited emite tokens USDT em múltiplas blockchains — Ethereum (ERC-20), Tron (TRC-20), Solana, Algorand, Avalanche e outras — cada vez que um cliente deposita dólares em suas contas bancárias. Na teoria, cada USDT em circulação tem um dólar correspondente em reservas. Na prática, a composição dessas reservas tem sido objeto de intenso debate: em 2021, a Tether revelou que apenas 2,9% das reservas estavam em dinheiro, com o restante em commercial paper, bonds corporativos, ouro e outros ativos. Isso gerou preocupações de que, em uma crise de liquidez, a Tether não conseguiria honrar todos os resgates simultaneamente — um cenário de "bank run" digital que poderia desestabilizar todo o mercado cripto.
O Tether é a infraestrutura invisível que mantém o mercado cripto funcionando. Mais de 60% do volume de negociação de Bitcoin é emparelhado com USDT, e a stablecoin processa regularmente mais volume diário que Bitcoin e Ethereum combinados. Em 2021, a Tether pagou US$ 18,5 milhões para encerrar uma investigação da Procuradoria de Nova York que alegava que a empresa havia enganado investidores sobre suas reservas e escondido perdas de US$ 850 milhões. Em 2023, a capitalização de mercado do USDT ultrapassou US$ 84 bilhões, um recorde histórico, apesar das preocupações com a MiCA (regulação de stablecoins da União Europeia). A Tether também expandiu para mineração de Bitcoin, energia renovável e educação. A CoinxVista analisa o USDT como um dos ativos mais paradoxais do mercado — ao mesmo tempo essencial e controverso, a espinha dorsal da liquidez cripto que todos usam mas poucos realmente confiam completamente.